Sociedade do Cansaço

Sociedade do Cansaço, livro de Byung-Chul Han

Sociedade do Cansaço, de Byung-Chul Han, é um breve ensaio sobre os efeitos provocados na mente das pessoas pelas mudanças sociais, culturais e econômicas do século 21.

Essa descrição pode ser aplicada a milhares de livros publicados atualmente. Nenhum deles, no entanto, parece ir pelo caminho apontado pelo filósofo sul-coreano.

Para Byung-Chul Han, uma das principais causas para a piora generalizada na saúde mental das pessoas é o excesso de positividade.

A mudança de uma sociedade disciplinar para a atual sociedade de desempenho, em que todos precisam “performar no seu máximo”, seria a principal razão para a explosão de doenças neuronais como depressão, transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade (TDAH), transtorno de personalidade limítrofe (borderline) e Síndrome de Burnout (SB).

Enquanto na antiga sociedade disciplinar as pessoas precisavam enfrentar mais regras, sujeições e proibições, na atual sociedade de desempenho muitos profissionais tornaram-se empresários de si mesmos.

O homem depressivo é aquele animal laborans que explora a si mesmo e, quiçá deliberadamente, sem qualquer coação estranha. É agressor e vítima ao mesmo tempo.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2015)

Esses empresários de si mesmos cobram-se com mais frequência e exigência do que os chefes e patrões de outrora. Sem intervalo para descanso, sem férias, sem fim de semana. O resultado é uma sociedade do cansaço.

Como o excesso de positividade produz a Sociedade do Cansaço

Byung-Chul Han, autor de Sociedade do Cansaço

Se você já leu livros modernos de administração ou de carreira, se já viu algum vídeo motivacional ou mesmo teve que ouvir algum “coach” falando, já deve ter percebido como a cultura da “positividade”, da “meritocracia” ou do “faça você mesmo” pode ser extenuante.

Byung-Chul Han escreve que as reclamações de uma pessoa depressiva de que nada é possível só se torna possível em uma sociedade que acredita que nada é impossível.

Para o autor, o excesso de positividade se manifesta também como excesso de estímulos, de informações e de impulsos. E todos esses excessos nos levam a uma espécie de involução.

Um dos exemplos dados é o da multitarefa. Embora seja vendida como algo novo e até mesmo como símbolo de produtividade, fazer várias coisas ao mesmo tempo na verdade é um retrocesso, uma involução ao estado mental de nossos antepassados.

Nossos antepassados, assim como quaisquer animais selvagens, só conseguiram sobreviver na natureza por estarem sempre atentos a múltiplos fatores. Eles precisavam cuidar de abrigo, alimentação, proteção contra predadores, fuga de fenômenos climáticos etc. Tudo ao mesmo tempo.

Só quando se libertou dessa necessidade de focar em tudo ao mesmo tempo o Homo Sapiens conseguiu desenvolver atenção plena, foco, capacidade de se concentrar por longos períodos em um problema para resolvê-lo de maneira criativa ou inovadora.

A cultura pressupõe um ambiente onde seja possível uma atenção profunda. Essa atenção profunda é cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção. Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo. Walter Benjamin chama a esse tédio profundo de um “pássaro onírico, que choca o ovo da experiência”.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2015)

A Sociedade do Cansaço precisa urgentemente aprender com Nietzsche, a “habituar o olho ao descanso, à paciência, ao deixar-aproximar-se-de-si”.

O problema é que cada vez mais nossa atenção é fragmentada por notificações, aplicativos, redes sociais. Tudo no caminho contrário à necessidade de capacitar o olho a uma atenção profunda e contemplativa, a um olhar demorado e lento.

A Sociedade do Cansaço também é a Sociedade do Doping

O excesso de atividade da sociedade do desempenho é duramente criticado no livro. Os ativos seriam na verdade preguiçosos, pois apenas rolam mecanicamente como uma pedra ladeira abaixo, sem parar para pensar no que estão fazendo. Para agir dessa forma, seria melhor deixar o trabalho para as máquinas.

A atividade que segue a estupidez da mecânica é pobre em interrupções. A máquina não pode fazer pausas. Apesar de todo o seu desempenho computacional, o computador é burro, na medida em que lhe falta a capacidade para hesitar.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2015)

Viciados em dopamina, os indivíduos na sociedade do desempenho recorrem cada vez mais ao doping farmacológico ou tecnológico para manter a atividade, a velocidade, a “alta performance”.

A própria palavra doping, vista como negativa, muitas vezes é substituída por algo mais positivo, como “neuro-enhancement” (melhoramento cognitivo).

O doping possibilita uma espécie de desempenho sem desempenho, uma performance continuada que inevitavelmente resulta em cansaço e pode levar a problemas mentais. Para usar uma expressão do autor, o excesso da elevação do desempenho leva a um infarto da alma.

O isolamento provocado pela sociedade do desempenho

Outro problema apontado é o isolamento social. Sobra pouco espaço para a socialização quando todos estão competindo por um mesmo espaço, querendo ser os mais competentes no trabalho, os mais saudáveis na academia, os mais bem sucedidos nas redes sociais.

O cansaço da sociedade do desempenho é um cansaço solitário, que atua individualizando e isolando. É um cansaço que Handke, em seu “Ensaio sobre o cansaço” chama de “cansaço dividido em dois”: “ambos afastaram-se inexoravelmente distantes um do outro, cada um em seu cansaço extremado, não nosso, mas o meu aqui e o teu lá”.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2015)

O indivíduo da sociedade do cansaço está isolado, inclusive, das ordens dos outros. Empresário de si mesmo, ele ele se desvincula da negatividade das ordens dos outros, mas em vez de obter emancipação, essa desvinculação transforma o que deveria ser liberdade em novas coações autoimpostas.

O isolamento e a mensagem de que você pode tudo, caso se esforce o bastante, estão na raiz de problemas mentais, segundo o autor.

Nas doenças psíquicas de hoje, não se vê a influência do processo de repressão e do processo de negação. Remetem, antes, a um excesso de positividade, portanto não estão referidas à negação, mas antes à incapacidade de dizer não, não ao não ter direito, mas ao poder-tudo.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2015)

Isolados, os indivíduos não têm mais tantos conflitos originários com outras pessoas. Agora esses conflitos são internalizados e transformados num autorrelacionamento conflitivo, que levaria ao empobrecimento do eu e à autoagressividade.

Byung-Chul Han escreve que o sujeito de desempenho esgotado está desgastado consigo mesmo. Está cansado, esgotado de si mesmo, de lutar consigo mesmo. Totalmente incapaz de sair de si, estar lá fora, de confiar no outro, no mundo, fica se remoendo, o que paradoxalmente acaba levando a autoerosão e ao esvaziamento.

Neste ponto, o autor repete antigos ensinamentos orientais que veem no autocentramento um dos grandes geradores de transtornos mentais, pois afasta a pessoa do convívio social, reduz a empatia e aumenta os desejos egoístas.

O papel das redes sociais e da comunicação pela via digital também é abordado em Sociedade do Cansaço. O mundo digital enfraquece relacionamentos mais profundos, é pobre em alteridade e principalmente promove um narcisismo exagerado.

Outro problema trazido pelo mundo digital é o excesso de opções. Embora positivo à primeira vista, o excesso de opções faz com que as pessoas se tornem incapazes de estabelecer ligações mais intensas com as suas escolhas.

O desejo de querer tudo e a realidade de não ter nada

De forma simplificada, a mensagem de Sociedade do Cansaço é que vivemos em uma época na qual discurso e realidade não coincidem, o que leva a um esgotamento mental. Muitas pessoas acreditam no discurso positivo, motivacional, de que é possível fazer tudo. Mas se decepcionam ao encarar a realidade de que nem tudo é possível.

A sedutora busca por esse eu-ideal leva os indivíduos a serem proibitivos, repressivos e duros consigo mesmos. Muito mais proibitivos, repressivos e duros do que se estivessem sob as ordens de outra pessoa.

O autor diz que o sujeito de desempenho projeta a si mesmo na linha do eu-ideal, enquanto que o sujeito de obediência se submete ao superego.

Submissão e projeção são duas maneiras bem diferentes de existir. Enquanto o superego dá uma coação negativa, o eu-ideal exerce uma pressão positiva de que tudo é possível. Enquanto a negatividade do superego restringe a liberdade do ego, a projeção do eu-ideal se vende como um ato de liberdade.

O problema é que o eu-ideal entra em uma busca cujo resultado é inalcançável, o que leva a uma eterna corrida pelo impossível, motivando fadiga, estresse, depressão.

Esse hiato entre eu-real e eu-ideal acaba gerando uma autoagressividade sem precedentes. Comparado com o eu-ideal, o eu real aparece como fracassado, acossado por suas autorreprimendas.

O sistema capitalista aproveita-se dessa busca. Byung-Chul Han lembra que, a partir de um certo nível de produção, a autoexploração é economicamente mais eficiente, muito mais produtiva que a exploração estranha, pois caminha de mãos dadas com o falso sentimento de liberdade.

A Sociedade do Cansaço preocupa-se demais com saúde física e de menos com celebrações

A busca por uma saúde de ferro, por corpos esculturais e por uma vida longa também é parte do problema apresentado no livro.

O autor opina que a sociedade contemporânea absolutiza a sobrevivência, nutrindo-se da ilusão de que mais capital gera mais vida, que gera mais capacidade para viver. “A divisão rígida, rigorosa entre vida e morte marca a própria vida com uma rigidez assustadora”, escreve Byung-Chul Han.

Em vez de se preocupar em viver uma boa vida, as pessoas parecem estar mais preocupadas com o futuro, com uma espécie de histeria pela sobrevivência. Assim os dias ficam reduzidos a processos biológicos, que podem ser monitorados por smartwatches, medidos por exames, estimulados por aparelhos de neurofeedback.

Diante do isolamento e da erosão do social, sobra apenas o corpo físico do eu, que deve ser mantido sadio a qualquer preço. A sobrevalorização da saúde física retira toda transcendência da nossa existência enquanto seres humanos, visto que reduz tudo ao prolongamento da mera vida, que deve ser mantida a qualquer custo e com todos os meios.

O resultado, para o autor, é desastroso. É como se a vida dos indivíduos atualmente se equipare à de mortos-vivos. Estão por demais vivos, para morrer, e por demais mortos para viver, para usar as palavras de Han.

Uma das curiosas consequências dessa sobrevalorização da saúde, do desempenho e da busca pelo eu-ideal é a perda da nossa capacidade de festejar, de celebrar, de se divertir junto a outras pessoas.

No mundo de hoje, tudo que é divino e festivo ficou obsoleto. Tudo se transformou numa grande e única loja comercial. A assim chamada economia sharing está transformando a cada um de nós em vendedor, sempre espreitando na busca de clientes. Nós enchemos o mundo com objetos e mercadorias com vida útil e validade cada vez menores (…) Aparentemente, temos tudo; só nos falta o essencial, a saber, o mundo (…) Já é tempo de rompermos com essa casa mercantil. Já é hora de transformar essa casa mercantil novamente numa moradia, numa casa de festas, onde valha mesmo a pena viver.

Byung-Chul Han, em Sociedade do Cansaço (2015)

O autor opina ainda que as festas realizam um instante de elevada intensidade vital e que a vida sadia como sobrevivência é o nível absolutamente mais baixo da vida.

Se na época do relógio de ponto era possível estabelecer uma clara separação entre trabalho e não trabalho, cada vez mais escritórios e salas de estar estão misturados. E, nessa disputa por espaço, o trabalho vem avançando sobre o lazer.

Por tudo isso, Sociedade do Cansaço é um daqueles livros que lemos em apenas um dia, mas cujas ideias ficam reverberando por semanas.

Escrito por
Walmar Andrade
Walmar Andrade